Tiktok: o cinema vertical
- maialissa gomes
- 8 de dez. de 2024
- 5 min de leitura
Vou confessar que gastei algumas horas pensando em qual tipo de conteúdo eu poderia trazer para iniciar essa página. Olhei para o longo espaço em branco por alguns instantes e instintivamente - quando dei por mim - estava assistindo alguns curtas de terror no tiktok.
Então percebi que eu tinha o tema perfeito em mãos, já que eu sou uma grande entusiasta da rede.
Mas o que é o tiktok?
Caso você ache que o tiktok é uma plataforma apenas de dancinhas e por isso nunca deu uma chance a ela, devo dizer que seu pensamento ainda está em 2019.
De fato, a rede começou assim, sendo uma fusão entre o aplicativo Musical.ly, que se popularizou por ser uma plataforma de dublagens em vídeos curtos, e Douyn, um aplicativo semelhante, ambos foram criados pela China. Porém, com seu crescimento a partir de 2020, a rede começou a atrair diferentes tipos de criadores de conteúdo, que iam além dos passinhos.

Tutoriais, vlogs, debates, notícias, reviews e até curta metragens. Hoje é possível encontrar de absolutamente tudo na plataforma. Qualquer pessoa pode gerar conteúdo, o que faz desse espaço um universo paralelo.
Se tornou comum passar pelas lives e encontrar:
- Gente descascando ovo com uma pinça;
- Mulheres montando marmitas para os seus maridos presos;
- Pessoas em seu horário de trabalho;
- Idosas rebolando enquanto estão deitadas na cama;
- Casais dormindo profundamente;
- Gatos ronronando;
- Pessoas fingindo serem NPC’s (caso de polêmicas, esse último).
E tudo isso retornou cerca de 110 bilhões para ByteDance - dona do Tiktok - apenas em 2023.
Odir é um professor que levanta debates e reflexões sobre diversos temas: religião, arte, política etc.
Isso sem contar que ele se tornou uma grande ferramenta de pesquisa, principalmente entre os mais jovens. O que nos traz ao cerne da questão:
O Tiktok mudou a forma de consumo e o formato dos novos filmes
Não é nenhuma novidade curtas independentes feitos por uma única pessoa ou com o mínimo possível. Isso já existia desde que o cinema surgiu. Muitos cineastas começam assim e hoje existem até canais específicos para o formato.
Entretanto, o tiktok trouxe uma nova cara: o formato 9:16. Agora assistimos narrativas sendo contadas em um formato verticalizado, o que com o passar dos meses dominou todas as redes, inclusive o próprio youtube.
Isso trouxe um novo olhar até mesmo para as ferramentas narrativas que podiam ser usadas:
Os famosos POVs se tornaram virais, o que não é nada novo na história do cinema, mas foi repensado para a limitação de se criar uma história sem muitos recursos e de uma forma rápida;
As Web séries ganharam um ritmo mais rápido e durações mais curtas dos episódios;
E se pensarmos além, podemos até considerar uma modernização do próprio cinema mudo. Não é uma obrigação e sim uma escolha não ativar o áudio e apenas nos deixar guiarmos pelas legendas e imagens na tela.
Os vídeos são do youtube, pois a plataforma não incorporou os vídeos do tiktok
A liberdade do baixo orçamento
Em um curta metragem que não foi pensado no formato tiktok, mesmo que o investimento seja o mínimo, ainda esperamos um certo esmero de qualidade.
Ou você aceitaria tranquilamente uma pessoa fazendo cinco personagens diferentes usando uma camiseta como cabelo e que falam só através de textos na tela e nunca aparecem juntos no mesmo plano? (A não ser que a pessoa saiba o mínimo de VFX).
O que seria considerado “tosco” ou ruim ganha um ressignificado nesse espaço, especificamente. Principalmente se considerarmos que na produção atual - para o tiktok - a “simplicidade” com que um vídeo é feito conecta o espectador com o criador. Aquele famoso “faça você mesmo”. A pessoa pode até não fazer, todavia se ela quisesse, conseguiria. Diferente, por exemplo, do instagram em que as pessoas tentam vender uma imagem de perfeição e inalcançável, mesmo que inexistente.
Cineastas no tiktok
Toda essa produção também pode ser usada como uma construção de portfólio, principalmente para os amantes do audiovisual que querem mostrar suas habilidades.
Iniciantes que buscam uma chance e precisam de um portfólio tem um espaço perfeito para testar e mostrar o que sabem fazer, independente da área: direção, arte, fotografia, som, animação, maquiagem e até roteiro podem explorar seus conhecimentos em vídeos diversos. Há espaço para todos.
O único ponto triste é que, muitas vezes, você é responsável por todas as etapas, podendo até ter que atuar. Para os não habilidosos nesse ramo, há soluções criativas como filmar pequenos comerciais de produtos ou criar histórias com seus pets, a criatividade está em fazer muito com pouco. Vai do seu estilo e o que está disposto a fazer.
Este espaço também é ótimo para quem quer tirar suas ideias do papel. Sabemos o quanto ter o nosso roteiro gravado é realmente complicado no mercado cinematográfico e muitas vezes vamos trabalhar com ideias de outras pessoas. Lá você é livre para fazer a sua história acontecer do jeito que pensou.
Fora que a própria plataforma organiza competições de curta metragem de tempos e tempos, incentivando ainda mais a produção desse tipo de conteúdo.
Criar ou viralizar? Eis a questão
Claro que temos a armadilha do engajamento. Se além de um portfólio, é desejado likes, comentários e compartilhamentos, é preciso estudar e entender algumas estratégias que funcionam na plataforma.
Assim como o cinema tem seu meio comercial, que almeja alcançar um grande público, a internet também tem. E esses dois se retroalimentam, já que muitas coisas produzidas no tiktok são pensadas pelo o que está em alta no cinema e o cinema tenta pensar em cenas virais para popularizar ainda mais os filmes.
Um exemplo disso é o filme Megan, na qual a cena da boneca dançando viralizou na internet e aumentou o desejo para assistir ou Barbie, que teve trend rolando baseado no filme, além de também ter cenas virais que levou o público ao cinema.
Viralizar não é tudo, no entanto ser reconhecido na internet ajuda a chamar atenção de interessados no seu trabalho. Então como conciliar?
A chave de qualquer projeto é entender para quem você está escrevendo. Aqui não seria diferente.
Quem você quer impactar com os seus vídeos?
Qual mensagem quer passar?
Por quê?
O resto é estudar estratégia e marketing para colocar em prática (ou pode contar com a sorte, o que é menos recomendado).
Mas nem tudo são likes...
Assim como temos grandes vantagens, também existem desvantagens. E o principal é justamente o fato de nos acostumarmos com muito conteúdo em pouco tempo. A maioria de nós está sempre assistindo o agora ansiando o depois e isso se reflete na forma que estamos consumindo obras atualmente.
Além da questão de 'maratonar' que se tornou forte com o streaming, criamos uma ansiedade de terminar logo algo que estamos assistindo. Com isso acabamos não aproveitando de fato a história que estamos acompanhando, principalmente narrativas longas e mais lentas.
Um filme pode nos perder facilmente para um celular e se a história não for “interessante” o suficiente, acabamos nem terminando ou simplesmente assistimos com os olhos em outa tela.
Só que isso também é um paradoxo, pois o próprio tiktok remunera justamente os conteúdos mais longos que passam de um minuto.
E hoje não é difícil encontrar por lá vídeos com mais de três minutos.
Então estamos reaprendendo a aceitar conteúdos longos? Ou apenas nos saciamos com a ilusão de que não é tão longo assim, mas passamos as mesmas duas horas de um filme 'escrolando' tela?
Apesar da frase existencialista, minha intenção não é te deixar borocoxô. Como eu disse no início, sou uma entusiasta da plataforma e acredito que há muito conteúdo valioso ali. Usando ao nosso favor é um ótimo espaço para produzir nossos conteúdos.
E aí, já criou conteúdo para o tiktok?

Comentários