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Junji Ito e seus personagens

  • Foto do escritor: maialissa gomes
    maialissa gomes
  • 8 de dez. de 2024
  • 8 min de leitura

Atualizado: 8 de dez. de 2024

Confesso que minha pretensão era abordar especificamente o tema dos personagens chapados e o uso nas histórias do Junji Ito. Entretanto, ao longo do texto fui percebendo mais características desses personagens e senti vontade de me debruçar e falar mais sobre.


Eu demorei muuuito para começar a me interessar pelas obras dele. Apesar de conhecer pessoas que recomendavam com afinco; na época eu não dei muita bola para os vários elogios, teorias e indicações.


Anos se passaram e me deparei com uma animação de terror - que teve o investimento de um guaraná –, em que a sinopse dizia ser um anime adaptado dos contos do mangaká. Fiquei, enfim, curiosa com o que o famoso Junji Ito tinha para contar.


Não, a animação não era “Histórias Macabras do Japão” lançada pela Netflix em 2023, mas sim “Junji Ito Collection” que saiu em 2018.






A animação não tem a melhor qualidade e se comparado com o mangá (algo errado de se fazer), é até menos assustador. Isso porque Junji Ito tem um grande preciosismo por texturas e alto contraste - o que gera um sombreamento específico em suas artes. E isso não foi muito aproveitado na animação, chuto que foi justamente por conta do orçamento. Traços mais limpos são mais rápidos de fazer, logo, o projeto sai mais barato.


Conto: A Janela da vizinha

Comparativo entre o mangá e o anime do conto: A janela da vizinha


Apesar das minhas ressalvas sobre as animações, o ponto é: depois disso, fiquei interessada em ler os mangás. Fui atrás de alguns contos e quando percebi - tinha me tornado uma apreciadora das criações do autor.


Junji Ito tem muitas histórias:


- Uzumaki;

- Tomie;

- Gyo;

- Vênus Invisível;

- As Egocêntricas Maldições de Souichi.


E mais dezenas de contos que eu poderia passar um bom tempo citando. E ao longo dessas narrativas podemos notar algumas características que se repetem em muitas de suas obras:


- O uso do terror sobrenatural, cósmico ou psicológico que trabalham os piores medos dos seres humanos ou revela seu pior lado;

- Texturas e alto contraste;

- Arcos negativos para os personagens;

- Narração dos personagens como forma de conexão;

- Body horror, gore e surrealismo;

- Personagens apáticos, melancólicos e chapados (chapado aqui não tem nada a ver com coisas ilícitas, ok?).


Hoje o nosso foco será justamente os apáticos personagens dessas histórias.


Conto: Os estranhos irmãos Hikizuri

Cena do episódio: Os estranhos irmãos Hikizuri (Histórias Macabras do Japão - Netflix)

O que é um personagem chapado?


Uma coisa que vamos perceber é que a nomenclatura varia de acordo com o teórico que estamos estudando. Então vai ser comum citar algo que pode ser chamado de várias formas a depender da base do estudo.


Todavia os personagens chapados, também chamados de planos, são aqueles que não tem muito desenvolvimento. Geralmente, eles não têm um conflito interno, não mudam suas motivações ou forma de agir, podem ser representados até por um arquétipo como o vilão que é só mal ou o herói que é só bom.


Os coadjuvantes costumam ser personagens chapados, pois estão ali apenas para cumprir um papel na trama e servir ao protagonista para cumprir a sua jornada. Porém, um protagonista pode ser um personagem plano.


Isso acontece em alguns filmes considerados “plot-driven”, onde a jornada externa do personagem é muito mais importante. A narrativa se baseia pelos acontecimentos no mundo a sua volta e ele precisa alcançar um objetivo.  


Esse tipo de personagem também é muito comum em: sitcons, animações e séries antológicas (principalmente terror), por exemplo.


E é aí que entram os personagens do universo do Junji Ito. É frequente vermos tramas protagonizadas por personagens que não tem tanta personalidade, são apáticos e até melancólicos.


Isso acontece até mesmo em projetos mais longos como Tomie, Mimi ou Souchi. São obras com um compilado de mini histórias, onde tem um novo conflito a cada conto e isso não carece de um aprofundamento e desenvolvimento da psique deles.



O que impacta no fato de não nos importarmos com ninguém, o que nos interessa são os acontecimentos horríveis que vão se desdobrar ao longo da narrativa.


O QUE ACONTECE é muito mais importante do que COM QUEM ACONTECE.


Inclusive a grande maioria dos personagens tem finais trágicos, o que chamamos de arcos negativos. E se não for o protagonista a sofrer, vai ser alguém próximo e ele vai ter que lidar com as consequências.

Jovens genéricos e a identificação

Eu ainda não li tudo o que ele fez, então pode ser que exista algo que fuja desse estilo. Ainda mais considerando que saiu o mangá “Declínio de um Homem” que é baseado na biografia do Osamu Dazai e talvez tenha um personagem mais complexo.


Declínio de um homem - Ozamu Dazai

Mas em geral as obras do Junji Ito, até as que são adaptações como é o caso do “Contos de Horror da Mimi”, tem personagens “genéricos” – principalmente femininos - que servem como uma forma de projetar o espectador no personagem. É até habitual o uso de narração para que de forma rápida possamos entender o que o personagem pensa e sente naquela situação e assim fique mais fácil essa conexão.


O tropo da menina bonitinha, meio sem graça que se conecta com o público feminino e atrai o masculino para depois lhes apresentar os maiores horrores é muito utilizado pelo autor. Até em histórias que são protagonizadas por homens, é comum eles terem uma bela moça ao seu lado, isso se não for ela a assombração.


E podemos analisar alguns exemplos disso:


- Conto Tomio – Gola Rulê Vermelha: Um garoto que é atormentando por uma bruxa (bonita) e que vai atrás da sua ex para pedir ajuda;

- Pássaro Negro: Um garoto que é alimentado por uma mulher pássaro, estranha, porém esbelta;

- O quarto da Modorra: Menina bonita que vai ajudar o namorado que não consegue dormir por conta do seu “eu” do mundo dos sonhos;

- Coração de pai: Um garoto perde seu melhor amigo e se aproxima da irmã dele, por quem se apaixona;

- Contos de Horror da Mimi: A menina bonita que passa por várias situações estranhas e sinistras;

- Tomie: Nesse caso, Tomie é quem assombra os outros. Mas ela é linda, todos se sentem atraídos por ela e a partir daí temos o horror.


Pássaro Negro Tomie Tomio: Gola Rulê Vermelha


Claro que apesar de usual, algumas histórias tem personagens que se destacam por serem diferentes.


O próprio Souichi é um exemplo disso, ele é um personagem extremamente peculiar, que faz as pessoas se lembrarem dele. Ainda assim, não há um desenvolvimento da sua psique. Sua estranheza apenas serve às situações que vão ser contadas na narrativa. Por que ele é assim? Isso já não importa.


As egocêntricas maldições do Souichi
Mangá

Imagem do mangá: Não entrei muito no mérito dos animes, pois como comentei - a qualidade deixa muito a desejar. Contudo, para um primeiro contato e conhecer o tipo de história que o autor faz, pode ser interessante. Ainda recomendo mais os mangás.

Essa foi uma análise bem desafiadora, mas que eu amei fazer. Alguns pontos me apoiei no canal “Quadrinhos da Sarjeta” para pensar sobre, pesquisar e enriquecer o texto.

E você que gosta das obras do autor, já tinha pensando sobre como esses personagens são construídos e por quê?

Obrigada pelo seu tempo e te espero de volta <3

Terror + jovens = Perfeito para dar xabu

Crianças e jovens são ótimos personagens para o gênero terror.


Analisando no sentido narrativo, isso é porque a criança é inocente, tem um campo enérgico bem mais aberto, então possibilita que ela possa ver coisas que os adultos não conseguem. E tem o fato de que ela ainda é indefesa.


E quando falamos dos jovens, eles estão em um período de transição. Não são mais crianças, porém ainda não são adultos. Estão na fase de se descobrirem e fazerem muita besteira. O que permite eles serem aqueles que vão atrás de mexer com entidades e coisas do tipo.


E podemos notar o uso dos jovens nos contos do Junji Ito.


É importante considerarmos que as narrativas japonesas partem de um outro ponto de vista cultural e isso se reflete na forma dele contar essas histórias.


O Japão é uma cultura mais coletivista, o que faz o pensamento ser em sociedade e não individual. O “eu” não importa mais que o “nós”. Tanto que existe toda uma cultura que preza pela ancestralidade e pelo legado de gerações. A ação de um reverbera em todos.


A própria forma que eles entendem a morte e a espiritualidade é diferente de nós. Enquanto construímos histórias em que a mera existência de algo de origem diferente é assustador, para eles o terror é pautado em um comportamento não comum. Se fazem algo que não deveriam fazer ou se aparecem em um lugar estranho, isso é apavorante.


Então ter esses jovens que ainda estão aprendendo como devem se comportar na sociedade se deparando com seres que agem de forma totalmente estranha e fora da conduta esperada, faz total sentido. São personagens que ainda não se encaixam lidando com seres que também não se adequam a nada e não sabem como agir diante desses seres.


Um exemplo disso é o conto “Labirinto Insuportável”, o medo da protagonista não está em ficar com um monte de homens cadavéricos que não comem a dias ou presa em um labirinto com cadáveres por toda parte. O medo vem ao sentir que está sendo observada por esses corpos.


Conto: Labirinto insuportável - Junji Ito

Já em “Ladra de rostos”, o pessoal sabe que há uma garota estranha entre eles que se transforma na pessoa que ela estiver perto por muito tempo e o incômodo não está na mera existência dessa garota, mas no fato dela perseguir as garotas que ela acha bonita para ter o mesmo rosto.


Conto: Ladra de rostos - Junji Ito

Ainda considerando a cultura e costumes, voltamos ao tópico dos personagens serem apáticos e melancólicos, mesmo quando a narrativa não inicia já no horror. E podemos ter a leitura que isso pode ocorrer justamente por conta dessa cobrança social.


É o momento de hormônios a flor da pele, tomada de decisões importantes enquanto há muitas dúvidas, medo de falhar, pressão da família; muitas coisas que fazem qualquer jovem pirar antes mesmo de ver um fantasma. Então, vê-los abatidos não é uma surpresa.


Geralmente os personagens mais “felizes” são os que não se importam com as convenções sociais, como o já citado Souichi.


Ainda assim, Junji Ito consegue levantar questionamentos e pensamentos através das suas tramas inesperadas. Os personagens são apenas veículos para chegarmos no que ele quer nos mostrar, o que não quer dizer que vai ser menos interessante. Pelo contrário, esperamos qualquer coisa acontecer com qualquer um. O que pode até deixar um pouco confuso de entender quem é o protagonista. Já que, às vezes, iniciamos acompanhando um personagem e, de repente, ele morre.


Balões de Ar - Histórias Macabras do Japão - Netflix

Cena do episódio: Balões de ar (Histórias Macabras do Japão - Netflix)


Não entrei muito no mérito dos animes, pois como comentei - a qualidade deixa muito a desejar. Contudo, para um primeiro contato e conhecer o tipo de história que o autor faz, pode ser interessante. Ainda recomendo mais os mangás.


Essa foi uma análise bem desafiadora, mas que eu amei fazer. Alguns pontos me apoiei no canal “Quadrinhos da Sarjeta” para pensar sobre, pesquisar e enriquecer o texto.


E você que gosta das obras do autor, já tinha pensando sobre como esses personagens são construídos e por quê?


Obrigada pelo seu tempo e te espero de volta <3

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